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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Bilhete

Meu caro amigo, um dia falei:
a paz que buscas como peregrino
não dura nem tem o brilho
da que existe dentro de ti.
Se falei da leveza da brisa,
da sombra densa da morte,
não foi de pavor, senão de compaixão.
Não busco migalhas de amor,
retalhos de beijos, farelos de abraços,
como tu pensas, pois que os tenho com fartura.
E assim os tendo, temo perde - los.
Contudo, creio que o amor terreno
não preenche minh'alma.
Pois quem já provou do eterno
jamais se satisfaz com o humano!
Fazes conjeturas, meu amigo,
sem sondares meus motivos.
Meu pranto é a dor de muitos,
mutilados no corpo e no espírito.
Carrego o sentimento de grandes
e pequenos,                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    
que lamentamos o egoísmo do mundo.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Questão de Consciência e Compaixão

Temos ouvido o tempo todo sobre intolerância religiosa, preconceitos de todo tipo e um mundo atordoado em plena agitação e temor de guerra, no ar que respiramos.
Muitos de nós já vivemos meio a deboches e seguimos em frente, sem baixa estima, sobretudo os que fomos bem educados e valorizados pelos nossos pais e familiares. Há uns com inteligência parca comparados com outros mais inteligentes; há muitos bonitos - homens, mulheres e crianças - que se exibem diante da irmã feia ou do irmão com alguma deficiência. Sem pudor, cometem gafes e faz piadas idiotas. Alguns exemplos me vem à memória: a excelente cantora e atriz Barbra Streisand - estrábica e com nariz inadequado a seu rosto, teve algumas sugestões para fazer cirurgia plástica e torna-lo mais aceitável a seu fotógrafo. Nunca se deixou levar por estes comentários maldosos; seguiu em frente com sua maravilhosa voz e ganhando muitos prêmios tanto na música quanto pelos filmes. Outro, o cantor Juca Chaves encarou ele mesmo o avantajado nariz que mereceu uma modinha, cantada e aplaudida em todos os seus shows. Uns tem olhos muito espaçados e grandes, outras os tem muito apertados, como Carla Bruni. Vemos os atores, o francês " beiçudo"  P. Belmondo e norte- americano J. Malkoviche, estrábico, nem de longe um modelo de beleza. Mas seduz pelo seu enorme talento. Estes são apenas alguns de muitos exemplos a serem seguidos. Quando falarem de nossos supostos  ou reais defeitos físicos e comportamentais, desarmamos o agressor levando na brincadeira. Você pode apenas sorrir ou perguntar se ele está com inveja?
Ou nós rirmos de nossos pontos fracos: se sou muito alta, ou muito baixa ou acima do peso...Se eu mesma aceito e brinco com o que seria zombado, tiro o argumento do outro que se sentirá vazio.
Neste último mês, estive em uma clínica de oncologia e o que vi sobre aparência e carências muitas das pessoas que ali frequentam, tocou-me profundamente. Ao meu lado, uma senhora totalmente calva, optara por não esconder sua falta de cabelos. A maioria está calva ou com cabelos bem ralos. Mas são muito criativas: a moça de frente, muito bem maquiada, prendeu o estampado de seu lenço num feitio de trança que ficou muito bonito; outra, usava um gorro colorido. A um canto, um idoso descansa ou sucumbe com a cabeça apoiada entre as mãos. Outro segue a se arrastar, muito frágil, sustentado por uma jovem, talvez uma filha. Sempre vejo uma senhorinha idosa, que se veste de chita e calça chinelos. Chega constrangida como se estivesse a transgredir. Vai ao balcão, marca presença e arruma um assento. Seu chapéu é de palha, mas não tem o estilo bonito daqueles de praia, próprios para senhoras. É um chapéu masculino, porém, ela carrega seu desânimo com dignidade, cabeça erguida, sob o amarelado do chapéu velho. É uma figura exótica, mas sua preocupação é a cura; isso é tolice. Vi também o jovem de perna amputada com ares de aceitação; câncer nos ossos, certamente.
Nestes dias em que ali estive, recebi ensinamento para o resto da vida. Foi como se um enorme sino de bronze caísse sobre minha mente e despertasse minha consciência sonolenta, não mais adormecida. Pois creio que estas pessoas, jovens ou velhas, jamais olharão os seus semelhantes comparando a cor da pele; os cabelos lisos, ondulados ou crespos, seus olhos, orelhas nem outros detalhes. Precisamos ser gratos a Deus se temos saúde completa. E os que ainda vivem presos na arena do preconceito e da ignorância deveriam dar uma passadinha semanal numa dessas clínicas. Quem sabe um sino de bom senso, no peso de enorme sino de bronze caia também sobre suas mentes e encontrem coisas mais úteis para falar e comecem a praticar a compaixão.