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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Busca Incansável

O lago esbanjando claridade, espelhando o sol, ferindo - me as retinas! Retive a emoção! Levei a sensação de perenidade mata adentro... O véu das ramarias, entrecortado de luz, dançava ao vento, como no tempo de fadas, no mistério multicolorido de aves e borboletas. Congelei o momento, na memória da saudade, tal o encantamento, tamanha a felicidade! No azulado infinito, tem gosto de eternidade o albatroz pairando em círculos , senhor do universo! No anverso da paisagem, a imagem fugaz de um homem em paz, à beira do lago, pescando esperança... Deslumbramento infinito! Dentro em mim, o lago na calmaria, a luz perene, bondade e beleza, no auge do esplendor. Aqui, encontro Deus, o eterno, o Tudo. A paz que se busca como andarilho, não dura nem tem o brilho da que se encontra dentro de ti!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Das Nuanças da Personalidade

Quando criança e adolescente, fui uma pessoinha tímida e muito introvertida. Pouco conversava em casa com meus pais e irmãos, apesar de sermos uma família de sete pessoas - crianças e adultos falantes, agitados até cantantes. Minha mãe era uma contadora de histórias e cantarolava enquanto executava suas muitas tarefas domésticas. Dentre os irmãos, pelo menos dois eram extrovertidos - cantavam até em público e ainda contam suas piadas e histórias cercados de olhares curiosos...A menina quieta e pensativa era muitas vezes criticada; meu pai, porém, entendia aquele jeito introvertido e discreto pois também ele era de pouco falar, mais pensativo e filosófico em seus juízos. Meu marido é um homem silencioso, focado no que faz, fala só o essencial. Algumas vezes, ele se envolve em conversas de temas específicos e a fala flui magistralmente. No entanto, socialmente tem dificuldade de se  misturar e interagir. Somos introvertidos, sem com isso  dizer incapazes de rir muito e falar coisas inteligentes ou tolices impróprias, de vez em quando. Em nossa idade adulta, ouvimos muitas observações maldosas, sobre pouco falar de um e muito falar de outra, na visão de quem se julgava com a perfeição em sua personalidade extrovertida ou pessoas sem o menor senso de realidade até educação.
Nestes dias, ouvi uma palestra de Susan Cain:- " The Power of introverts"- onde ela chama atenção para que se valorize os introvertidos. Vemos desde meados do século XX até hoje que empresas e a sociedade como um todo valorizam mais os indivíduos extrovertidos, que fazem muitos contatos e conquistam outra dezena de amigos em poucos meses. Aqueles que se esforçam para agradar, para serem o centro das atenções e receberem os aplausos - seu alimento diário. Há os que saem de um evento qualquer já com uma agenda gorda de muitos nomes e datas para encontros futuros. Não esperam ser convidados; eles convidam e programam seus desejos. Gostam de exibir centenas de amigos que mal conhecem, nas redes sociais, ou são " seus seguidores". O introvertido - segundo a palestrante - e confirmo na minha parcela de introvertida - odeia trabalhar em grupo; prefere fazer seus estudos e resolver seus problemas individualmente - quase sempre rende muito mais e o resultado é de ótima qualidade. O trabalho em grupo os tolhe, em parte bloqueia sua ação.
Quando se somam a introspecção e a timidez, o indivíduo introvertido se questiona sobre o revelar-se demasiadamente. Volta, então, para sua redoma de vidro, sua zona de conforto de onde não desejou sair. É um presente divino quando um introvertido encontra outro semelhante. Alma gêmea a compartilhar com poucas palavras até só com um olhar ou um sorriso complacente, como a dizer:-
 " hoje, só por pouco tempo, estarei aqui fora..."
Sejamos nós extrovertidos ou introvertidos precisamos exercitar a tolerância e enxergarmos o valor de cada pessoa, com as nuanças características de sua personalidade. Ninguém é formatado em  um só aspecto. Temos a cor mais acentuada de um extrovertido ou a cor mais pálida do introvertido, sem com isso valorizarmos um mais que o outro. Urge valorizar o introvertido, pois a partir de suas reflexões, temos tido ao longo dos anos, os pensamentos filosóficos e teológicos, as ideias brilhantes dos cientistas, dos escritores e poetas, dos monges e  de todos que deixam um pouco a extroversão e entram na solidão criativa e no silêncio eloquente. Já o Cristo Jesus, que tinha uma exuberante personalidade - depois de muito ensinar e curar - afastava-se de seus amigos e permanecia por muitas horas da noite, em meditação e oração. Era reavaliar seu dia e abastecer-se para o trabalho do dia seguinte. Bom exemplo este do Mestre que acolhia a todos, sobretudo aos mais difíceis.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Do Silêncio e da Meditação

     Faz muitos anos que pratico a meditação, apesar de este hábito saudável ter sido por mim negligenciado. Eu me acostumara ao silêncio planejado, pois a oração - diálogo com Deus - é minha meta maior, senão a única. Não era fácil proporcionar - me a quietude do ambiente externo; muito mais difícil silenciar- me os pensamentos. Tinha o hábito de sentar-me confortavelmente em uma poltrona ou no chão, sobre um pequeno tapete. Colocava melodia adequada - quase sempre música clássica, de andamento suave - ou eu mesma cantarolava uns mantras ocidentalizados. Seguia a técnica das respirações conscientes, profundas e pausadas e a consciência de meu corpo, no espaço. Na respiração me concentrava e meus sentidos se acalmavam. A imaginação sempre teve papel importante em minha meditação. No entanto, é de suma importância gerenciar esta " louca da casa". Aprendera que a imaginação é a força da força de vontade. O Mestre Jesus Cristo já dissera e quase me esquecera de que nossos desejos devem ser visualizados e, nesta constatação, já os podemos agradecer porque os veremos concretizados. Eu gastava algumas horas neste silêncio e mergulhava no meu "eu" mais profundo. Resgatava o melhor de mim mesma, deletava mágoas e frustrações e pairava na paz, longe da insensatez do mundo. Contudo, esse método de usar muito a imaginação pode ser como uma faca de dois gumes, pois nem sempre o que sonhamos é bom para nós. Eu derrubava com muito custo, todos os rumores de fora e maior trabalho era fechar as portas do corpo e domar a vozearia da mente. Só este era meu caminho para o silêncio, onde encontrava a paz que eu buscava. Era meu estado de plenitude, como feto no útero. Voltava, vagarosamente, para o mundo das tarefas empíricas, quase sempre estressantes. Depois, descobri outras maneiras de encontrar o silêncio e atingir o equilíbrio de corpo - mente - espírito sem aquele ritual disciplinado, meio passivo.
     Agora, uso mais a meditação ativa, caminhando junto à natureza, margeando um riacho, embalada pelo rumorejar da água entre as pedras e silenciando a mente na sinfonia de pios e chilreios ou entre lagartas insolentes, no meu pequeno jardim.
     Há quem esvazie a mente pedalando ou nadando; correndo ou limpando a casa; bordando até cozinhando. A meditação ativa, escolhida e prazerosa também nos leva ao silêncio; o corpo pode estar cansado, mas a mente e o espírito estarão em paz.
     Enfim, nada que os orientais, os índios ou qualquer cultura primitiva já não praticassem.

sábado, 13 de julho de 2013

Pantanal II

     Falar de Pantanal talvez seja um tipo de refrão por demais cantado: " é chover no molhado". Hoje mesmo, vi parte de um documentário com aquela riqueza toda, da qual vi apenas uma pequena parte. Por isso, meu texto é um pequeno registro, num enfoque humilde - mesmo porque seria difícil postar muita coisa, dada a biodiversidade daquele paraíso.

     Desta vez, fizemos semelhantes passeios de barco pelo rio Miranda à procura de pássaros que habitam nas árvores de suas margens. Encontramos uma rica variedade da qual destaco os seguintes: cavalaria, joão pinto, caracará, arara - vermelha, arara - azul, arara - canindé, periquitos, mutum - de- penacho, garça-real, aracuã- do -pantanal e outros muitos. Caminhar logo de madrugada foi um trabalho para os fiéis fotógrafos dessas aves raras e encantadoras. Fui de acompanhante, mas a vida naquele lugar começa muito cedo e nos obriga a seguir aquele ritmo. Desliguei - me totalmente do mundo dito civilizado: nada de telefone, televisão nem Internet. Li um bocado, escrevi pouco, orei bastante e meditei o suficiente. Era formidável ter o silêncio interrompido exclusivamente pelo farfalhar de pios, gorgeios, chilreios ou trinados, todos desalinhados mas orquestrados por mãos divinas. O colorido de mil tons de verde, com manchas vermelhas, outras amarelas ou azuis eram o primeiro plano daquela paisagem dourada com fundo azul celeste. Uma delícia! Escrevi um poema desta força da natureza sobre nossa saúde. É formidável o sol para nos tirar da cama, da casa, do casulo; sair da melancolia - nossa herança portuguesa - sair de nós mesmos. Ir ao encontro da luz natural e daquela que emana das pessoas translúcidas. Repletos de energia, de alegria por nada e por tudo, cantamos sem dizer palavra e ouvimos a melodia silenciosa do vento na ramaria. Muito bom.

     Emoldurando tudo, uns papos - cabeça até muita conversa - jogada- fora com gente muito jovem, tal o irlandês e o alemão, como maduros tais os casais franceses e outros brasileiros. Isso era mais no refeitório, porque as moças estrangeiras ficavam só curtindo o "verão" de junho, de biquinis, na piscina. Para meu gosto, eu usava agasalho leve, nunca, porém, roupa de banho. Porque eu sentia frio mas elas precisavam ganhar uma corzinha naqueles poucos dias. De fato, eram demasiadamente brancas. Este era um grupo que chegou junto, apenas turistas de férias. Interessante o garoto alemão - não direi seu nome - de dezoito anos a dizer que faz estágio na empresa de Eike Batista, onde seu pai trabalha na construção de uma usina termoelétrica. Com ar de criança travessa, que está a fazer algo proibido, sentia-se importante porque desconhecia totalmente do trabalho de uma usina deste tipo. A família inteira veio da Alemanha; moram no Rio de Janeiro há seis meses. Disse-me que ele e o pai tiveram aulas de português, língua que julga muito difícil. Logo entendi porque a mãe nada falava mas me sorria admirada de o filho estar a tagarelar nesta língua que ninguém fala! E eu o escutava e respondia lentamente; às vezes também perguntava; o pai não viera ao Pantanal porque estava doente. Ora, ora, o empresário brasileiro em questão tem cacife para expatriar um funcionário alemão e sua família e lhe pagar um bom salário em euros. Pura especulação de minha parte que creio piamente termos gente qualificada para este trabalho. Ou não temos?

     Sei que poderia ainda ir ao Pantanal por mais vezes e voltaria sempre em estado de graça. Os ruidos não naturais, os hábitos que nos deixam enclausurados, sem o sol, a poluição do ar, tudo isso nos torna mal - humorados, alguns até doentes.

     Uma semana imersa no universo pantaneiro só me privou da alegria maior que era estar com meus pequeninos netos, Guilherme e Giovana já que os Felipe e Gabriel permanecem para além do mar, do outro lado do mundo.