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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O Perfume da Vida

Ama as estrelas
que cintilam no céu.
Descerra da mente
o nebuloso véu
que encobre totalmente
o encanto de viver.
Ama a água
que cai pesada
e escorre na calçada
ou segue cantante das fontes.
Ama os montes,
as flores e os campos.
Ama o cinzento desbotado
dos pardais insolentes,
que piam a morrer de amores
na goiabeira do quintal.
Ama o sol que te desperta
e o pequeno animal
que a criança aperta
num abraço sem igual!
Ama toda boa lembrança ;
ama sem distinção
sem nem pensar em vingança!
Ama o sino da capelinha
que bate tímido, descompassado.
Ama o homem apressado,
outros mil desconhecidos,
carrancudos, distraídos...
Ama o tumulto dos carros,
os latidos e os chiados,
os chilreios e os miados,
os gemidos e os cantares.
Ama a vida que tens -
entre tropeços, apelos e atropelos -
ainda mais o silêncio da noite.
Ama sem pressa e preza
cada dia concedido.
Colhe, agora, sem demora,
colhe cada momento como rosas
para que possas
experimentar o perfume da vida!

sábado, 5 de março de 2016

Na aridez dos dias maus

A palmeira derramou quatro
desbotados braços de galhos,
esturricados e lamentosos,
esfolados pelo ardor amarelo
de um sol desapiedado.
Soltava a pobre árvore
gemidos lânguidos e trêmulos
nas manhãs, nas tardes e nas noites
de uma primavera ingrata e avara,
nada de brisa, nada de orvalho
nem chuvisco a chorar a seca...
Consolada pelo sanhaço,
amada pelo sabiá - barranco,
arrancou solidários suspiros
do manacá, despido de cor e vaidade,
já na saudade de suas flores,
que jaziam em tapete, sobre o amarelo
do gramado que um dia fora verde.
Choram inda na manhã de domingo,
o pardal e a rola que rola na pouca
poça d'água que noutro dia sobrara
da rega e logo se secará...
Sob a hera que se tornara seu teto,
numa sombra curta e rala,
perto da murta e do jasmim,
ainda o sanhaço lamenta
com todo o jardim!
Chora a chuva que não chega.
Vai-se embora a primavera
e o verão secará o rio e a lagoa.
Isso não é promessa boa!

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Lamento da Natureza


Observo com curiosidade
a movimentação inquieta do meu jardim.
Se é como bem me lembro,
quando chegava setembro,
vinha com ele a primavera.
Era tempo de calmaria, do colorido de flores
e de chuvas cantantes refrescando
nossas tardes. O calorão só vinha no verão!
Agora, a natureza lamenta em coro:
Quero água! Quero água!
Céu azul,  manchado do branco das núvens,
iluminado sob o dourado do sol,
acolhe o bem -te - vi que abraça seu filhote
e chora a chuva que não veio.
Sobre o verde desbotado do abacateiro,
geme a corroíra em busca de alimento.
Aqui, a sabiá a lamentar o dia inteiro
que o vento já vem, sem argumento,
a levar a molhadeza, pras bandas do mar...
No canto do muro, a murta sem lágrimas,
engole um soluço e suspira por um banho!
O voo colorido do beija-flor tenta
abraçar o manacá e nova dança inventa
que lhe poupe energia e o alimente.
Mente quem diz que a natureza não pensa.
Pensa e sente como gente.
A natureza sabe que os rios
estão - se tornando riachos,
prenunciam córregos até trilhas de terra
socada e seca; enrugada  e craquelada.
Ouço nos pios dos pássaros
a prece de toda a natureza, que em coro
suplica: que venha a chuva, bom Deus!