Conversa vai, conversa vem, sempre uma delas desemboca nas dificuldades do mundo e do Brasil, que não é mais o sonho -de - consumo de estadunidenses e europeus. Outra conversa divaga sobre nuvens espessas de campeonatos de futebol. Tudo muito previsível, nenhum mistério. Porém, no fechar os olhos cansados da noite, alguém sempiterno suscita um tiquinho de mistério a temperar o começo da madrugada.
Mistério: cortina de fumaça, véu anuviando nosso entendimento...
Seria a vida um mistério ou mistério impermeável é a morte? Esta, uma emblemática senhora vestida de negro a segurar enorme foice aguarda impaciente sua próxima vítima ou - quem sabe?- alguém que a saiba amiga. Ela nos lembra que é preciso não ter pendências, não adiar as coisas, sobretudo as da alma. Constantemente, ela espreita atrás da porta. Aguarda sem pressa; sabe que o tempo é seu aliado. Esta figura abstrata, sinistra até humilde para alguns se contrapõe à senhora Vida. Símbolo de Vida? Pode ser luz, alvura azulada, o sol mesmo, tudo isso é símbolo de Vida. Mas explicá-la quem pode? Nasce alguém, em madrugada gelada, dentro de um iglu confortável. Na mesma hora, nasce outra pessoa num país tropical,cuja temperatura local é de trinta e nove graus, dentro de um barraco, onde a carência total chora de todo lado. Ambas estarão prensadas entre o nascer e a derradeira hora; ambas levarão vidas semelhantes; sofrerão alternadamente. Também ganharão bocados de felicidade, dependendo do olhar de cada uma sobre o mundo. Mistério da consciência humana. Aquela caminhará sobre difícil estrada; esta trilhará caminho fácil, materialmente, com muitas lágrimas de perdas, de apertar o coração. Uns cumprirão suas metas. Outros serão ceifados muito cedo, no alvorecer de seus dias. Pouco ou nada sabemos do como e do quando daremos adeus e seguiremos a senhora vestida de luto. Isso é mistério. Viver é correr riscos. E morrer? O que será o morrer?
Lá pela década de setenta, ouvíamos curiosos as notícias de que aeronaves e navios desapareciam como passe de mágica, desde 1945 sem deixar vestígio algum. Tinham marcado como um triângulo imaginário o centro do oceano onde tal fenômeno ocorria com frequencia. Um ponto próximo a Miami marcava a posição sudoeste deste triângulo; Bermuda marcava o ponto norte e Porto Rico o sudeste. O espaço compreendido entre esses tres pontos chamou-se " Triângulo das Bermudas."
Minha comadre nordestina cre piamente que todos esses desapareimentos misteriosos aconteceram a pessoas altamente espiritualizadas que teriam sido arrebatadas ao céu, conforme citação bíblica. Outras teorias falavam de alienígenas ou que ali existia um portal do espaço. Certamente tinham visto muitos filmes duvidosos de ficção. Especulações para o mistério não faltaram. O tempo cumpriu seu itinerário e navios e aviões devem ter procurado nova rota de tal forma que havia muito tempo não se escutava mais do mistério de o mar sugar enormes embarcações e esquadrilhas inteiras, sem deixar rastro!
Então, agora ouvimos que faz já um mes que o Boeing 777 da Malaysia Airlines está desaparecido sem esperança de que seus destroços sejam encontrados. Seria outro " Triângulo das Bermudas" em nova versão, no Oceano Índico? É atentar bem sobre o provável local do ocorrido e aguardar se novos sumiços ocorrerão.
Ontem, meu neto me ligou. Sua voz de criança, nos seus seis anos incompletos, era puro júbilo. Seu primeiro dente havia caido e, certamente, a misteriosa Fada - do - Dente passaria por lá para fazer a troca: levaria seu dente e lhe daria um presente. Insistiu que eu fosse lá para ver esta coisa surpreendente e inexplicável que era ter um vão no lugar onde havia um dente! Ali, bem na frente. Algo fantástico! Fui lá. O menino estava maravilhado. Mirava- se no espelho e aquela imagem que via não era ele mesmo. Era outra pessoa muito diferente. Esfregava o dedo naquele vazio avermelhado, como se procurasse uma explicação para o mistério! Haveria já ali por baixo outro dente prontinho para aparecer? Viria logo ou agora era seu momento de curtir uma situação diferenciada, de pertencer ao novo grupo de banguelas? Aquele privilégio era, afinal, para poucos em sua classe de colégio.
Assim, é que cada um de nós tem seus próprios mistérios. Mesmo que o mistério seja apenas a queda do primeiro dente - de - leite, a feitura do algodão - doce ( aparece no ar e some na boca, sem ser mastigado) ou uma estrelinha - símbolo da bisa que foi morar no céu - até um duende de jardim. Basta o olhar atento ao andar pelo mundo porque os mistérios estão por toda parte.
quarta-feira, 30 de abril de 2014
sábado, 12 de abril de 2014
Sobre uma criança
A frágil criança -
que medrava na dor
e desalento -
era, neste momento,
robusto carvalho,
sob o orvalho,
de vaga melancolia,
sem medo da tempestade,
pulando com euforia,
sobre ciladas de falsidade.
Segue, na vida,
um caminho de pedra e lama;
ouve a voz de Deus
que a chama
e aguarda sua resposta.
Nenhuma regra imposta.
Só o amor importa.
que medrava na dor
e desalento -
era, neste momento,
robusto carvalho,
sob o orvalho,
de vaga melancolia,
sem medo da tempestade,
pulando com euforia,
sobre ciladas de falsidade.
Segue, na vida,
um caminho de pedra e lama;
ouve a voz de Deus
que a chama
e aguarda sua resposta.
Nenhuma regra imposta.
Só o amor importa.
sexta-feira, 14 de março de 2014
Chuva na Madrugada
A leveza do vento
vem brincar na palmeira.
A galhada se alegra
e, no ritmo, dança.
A atmosfera alegria promete
até uma festança!
Juntam-se as mãos em oração.
A chuva! Precisamos da chuva!
Água em cúmulos escuros
esconde o sol.
Soletro a prece em gratidão,
já prevendo a oferta dos céus.
Que chova uma chuva como confetes
ou serpentina.
Não repentina, em granizo,
a destruir lavouras e casas.
Bendita a chuva que cai como bênção;
Bendita esta cantilena molhada,
que vela meu sono, na madrugada.
vem brincar na palmeira.
A galhada se alegra
e, no ritmo, dança.
A atmosfera alegria promete
até uma festança!
Juntam-se as mãos em oração.
A chuva! Precisamos da chuva!
Água em cúmulos escuros
esconde o sol.
Soletro a prece em gratidão,
já prevendo a oferta dos céus.
Que chova uma chuva como confetes
ou serpentina.
Não repentina, em granizo,
a destruir lavouras e casas.
Bendita a chuva que cai como bênção;
Bendita esta cantilena molhada,
que vela meu sono, na madrugada.
domingo, 2 de março de 2014
Argumentação
Que sua mente lhe diga
que ele é bom, é legal.
Que a emoção que você sente
é perfeita, sem igual.
Não deixe que ela invente
armadilha ou traição.
Não passe seu amor na peneira.
Nem faça nenhuma asneira!
Não brigue por picuinhas
nem faça de seu querido
bode expiatório.
O caldo amoroso leva ervas, vinho,
carinho até uma pitada de perdão.
E pimenta, como o olhar
de mulher ciumenta.
Faça assim que o amor floresce
e por muito tempo permanece.
que ele é bom, é legal.
Que a emoção que você sente
é perfeita, sem igual.
Não deixe que ela invente
armadilha ou traição.
Não passe seu amor na peneira.
Nem faça nenhuma asneira!
Não brigue por picuinhas
nem faça de seu querido
bode expiatório.
O caldo amoroso leva ervas, vinho,
carinho até uma pitada de perdão.
E pimenta, como o olhar
de mulher ciumenta.
Faça assim que o amor floresce
e por muito tempo permanece.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
O Clamor das Ruas
O grito que vem das ruas
não é grito de guerra.
Mesmo vindo dos sem - terra,
dos sem - teto, dos sem - nada.
O clamor, então, por que seria?
Não seja, pois, enganada.
Aqui não é a Síria!
O malfeitor mascarado,
mal - ajambrado
não é criança
ingênua, sem esperança.
Não pode portar
paus, pedras nem lança.
Não deve quebrar vidraças,
pôr fogo em ônibus,
impedir sua paz
nem roubar sua vida.
O clamor das ruas é legal.
É adestramento da cidadania.
Não creia na fantasia
de ser melhor dentro de casa,
a fugir do dever.
Não se acorrente ao medo.
Medo é solidão, terror.
Medo é escuridão.
Não carrega amor nem união.
Coragem!
O limite do medo
é o brilho da luz divina
que está em você!
não é grito de guerra.
Mesmo vindo dos sem - terra,
dos sem - teto, dos sem - nada.
O clamor, então, por que seria?
Não seja, pois, enganada.
Aqui não é a Síria!
O malfeitor mascarado,
mal - ajambrado
não é criança
ingênua, sem esperança.
Não pode portar
paus, pedras nem lança.
Não deve quebrar vidraças,
pôr fogo em ônibus,
impedir sua paz
nem roubar sua vida.
O clamor das ruas é legal.
É adestramento da cidadania.
Não creia na fantasia
de ser melhor dentro de casa,
a fugir do dever.
Não se acorrente ao medo.
Medo é solidão, terror.
Medo é escuridão.
Não carrega amor nem união.
Coragem!
O limite do medo
é o brilho da luz divina
que está em você!
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clamor de rua; guerra; medo; malfeitor; mascarado,
paz,
Síria
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Do Caminhar pela Vida
Na estrada da vida,
peregrina rumo ao Eterno,
enveredei-me por vias frias,
ou de intenso calor,
no desamparo ou com amor.
Determinada, levei no bojo,
o riso e a lágrima,
espinhos e rosas,
nas cidades e nas roças.
Como pessoas, as rosas
são perfumadas e lindas,
mas ferem, às vezes.
Meus joelhos reclamaram
e minha vista se turvou.
Meu corpo se cansou,
claudicou e se curvou.
Porém, cada pedra pisada
foi em nuvem transformada
que não feriu meus pés.
Feliz é quem completa a jornada
e encontra a porta de chegada!
peregrina rumo ao Eterno,
enveredei-me por vias frias,
ou de intenso calor,
no desamparo ou com amor.
Determinada, levei no bojo,
o riso e a lágrima,
espinhos e rosas,
nas cidades e nas roças.
Como pessoas, as rosas
são perfumadas e lindas,
mas ferem, às vezes.
Meus joelhos reclamaram
e minha vista se turvou.
Meu corpo se cansou,
claudicou e se curvou.
Porém, cada pedra pisada
foi em nuvem transformada
que não feriu meus pés.
Feliz é quem completa a jornada
e encontra a porta de chegada!
sábado, 18 de janeiro de 2014
Boa Morte
Faz já algum tempo que quero falar deste assunto. Minha filha enviara- me com entusiasmo a notícia sobre o valoroso atleta belga, Emiel Pauwels. O senhorzinho das mil medalhas ( ouro, prata, bronze ) - a recebê - las desde sua juventude, tinha agora 95 anos! Ele falecera neste último sete ( 07) de janeiro, tendo optado pela eutanásia. Eu estava cansada e focada em conversas de doenças, de parentes e amigos e não me detive a valorizar sua perseverança. Ele se dedicara ao atletismo com empenho e conquistara seus muitos premios até tornar-se um dos maiores da Europa, em sua categoria de veteranos. De fato, eu deveria deter-me neste fantástico progresso, tendo ele atravessado idades tão limitantes até desanimadoras.
Não são muitos os países que aprovam e executam a eutanásia. Temos os Países Baixos, Luxemburgo e Suíça na iminência de aprovação, a Colômbia e, nos Estados Unidos, somente o Estado do Oregon. François Hollande - presidente francês - acaba de anunciar lei que regulamenta o final da vida de pacientes terminais, para encerrarem seus dias " com dignidade". Segundo o juramento de médicos, eles devem fazer todo o possível para recuperar a saúde de doentes; mesmo aqueles portadores de doenças incuráveis. Temos visto verdadeiros milagres em que há recuperação espantosa, sobretudo para os que gostam de viver. Tivemos dois doentes terminais na família e estes agiram corajosa e tranquilamente até o fim, apesar de grande sofrimento. Nenhuma revolta ou desespero, constatamos.
Pode acontecer, como já ocorre na Bélgica, que ninguém mais se espante nem questione com o emprego da eutanásia, dentro de poucos anos. Praticada desde a Antiguidade, a eutanásia era empregada pelos celtas e outros povos nórdicos, que queriam apressar a morte de seus pais idosos e enfermos. Há quem afirme que eutanásia é como um suicídio assistido. Contudo, num olhar investigativo, concluimos que o suicídio é praticado pela própria pessoa que o escolhe. A boa - morte uma vez pedida e aceita é assistida por um médico e quem a executa é uma terceira pessoa.
O que me surpreendeu foi que Pauwels realizou uma festa, no dia anterior ao de sua morte. Convidou alguns amigos e seu filho único. Dizem que estava feliz.
Talvez eu tenha sido severa demais com ele. Aos noventa e cinco e com câncer de estômago, sabia que não mais faria seus esportes e poderia ter muitas dores. Ainda não tinha sofrido nada disso. Neste último dezembro ganhou medalha de ouro, na Copa do Mundo Brasil 2013 ( veteranos). Só de pensar nas limitações e sofrimento preferia morrer. Não tenho o direito de julgar sua escolha. Meu conceito é que a vida é um dom e só o Criador a pode recolher para si. Porém, com medicamentos poderosos ninguém precisa partir como acontecia no passado.
Seria eu hipócrita a dizer que aplaudi a escolha do atleta. Ele poderia aceitar o último torneio, às vezes longo e sempre dificílimo, mas experiência ímpar e intransferível. Custava o belga correr só mais esta vez na estrada da vida? Atravessaria o vale sombrio da morte e saberia que do outro lado ainda há muita vida a ser vivida.
Deus me encha de coragem e paz, quando eu tiver que atravessar a ponte da eternidade; quando o sino tocar e eu tiver que me mudar para o andar de cima. Que ninguém me ofereça eutanásia. Não precisarei de festa nem de carpideiras.
Não são muitos os países que aprovam e executam a eutanásia. Temos os Países Baixos, Luxemburgo e Suíça na iminência de aprovação, a Colômbia e, nos Estados Unidos, somente o Estado do Oregon. François Hollande - presidente francês - acaba de anunciar lei que regulamenta o final da vida de pacientes terminais, para encerrarem seus dias " com dignidade". Segundo o juramento de médicos, eles devem fazer todo o possível para recuperar a saúde de doentes; mesmo aqueles portadores de doenças incuráveis. Temos visto verdadeiros milagres em que há recuperação espantosa, sobretudo para os que gostam de viver. Tivemos dois doentes terminais na família e estes agiram corajosa e tranquilamente até o fim, apesar de grande sofrimento. Nenhuma revolta ou desespero, constatamos.
Pode acontecer, como já ocorre na Bélgica, que ninguém mais se espante nem questione com o emprego da eutanásia, dentro de poucos anos. Praticada desde a Antiguidade, a eutanásia era empregada pelos celtas e outros povos nórdicos, que queriam apressar a morte de seus pais idosos e enfermos. Há quem afirme que eutanásia é como um suicídio assistido. Contudo, num olhar investigativo, concluimos que o suicídio é praticado pela própria pessoa que o escolhe. A boa - morte uma vez pedida e aceita é assistida por um médico e quem a executa é uma terceira pessoa.
O que me surpreendeu foi que Pauwels realizou uma festa, no dia anterior ao de sua morte. Convidou alguns amigos e seu filho único. Dizem que estava feliz.
Talvez eu tenha sido severa demais com ele. Aos noventa e cinco e com câncer de estômago, sabia que não mais faria seus esportes e poderia ter muitas dores. Ainda não tinha sofrido nada disso. Neste último dezembro ganhou medalha de ouro, na Copa do Mundo Brasil 2013 ( veteranos). Só de pensar nas limitações e sofrimento preferia morrer. Não tenho o direito de julgar sua escolha. Meu conceito é que a vida é um dom e só o Criador a pode recolher para si. Porém, com medicamentos poderosos ninguém precisa partir como acontecia no passado.
Seria eu hipócrita a dizer que aplaudi a escolha do atleta. Ele poderia aceitar o último torneio, às vezes longo e sempre dificílimo, mas experiência ímpar e intransferível. Custava o belga correr só mais esta vez na estrada da vida? Atravessaria o vale sombrio da morte e saberia que do outro lado ainda há muita vida a ser vivida.
Deus me encha de coragem e paz, quando eu tiver que atravessar a ponte da eternidade; quando o sino tocar e eu tiver que me mudar para o andar de cima. Que ninguém me ofereça eutanásia. Não precisarei de festa nem de carpideiras.
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