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quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

De Novo: O Fim Do Ano

     O nascimento de Jesus, o Cristo, poderia ser celebrado durante os 365 dias do ano. E deixar nascer o Salvador em nós, nada mais é que nos revestirmos de seus pensamentos e sentimentos, pondo - os em ação. É difícil, porém, não impossível. Com atenção e disciplina esta transformação vai aos poucos acontecendo ao longo de nossa caminhada pela vida. Mais um dia que tenho é tempo de rever minhas opções, consertar atitudes negativas ou adubar comportamentos saudáveis. Com essa revisão diária, como bom jardineiro ou agricultor, não diremos como mantra habitual: " Feliz Natal" ou " Feliz Ano Novo". Nossos bons desejos devem nascer da solidariedade e da compaixão. Não se pode viver dando murros em punhal e nas festas natalinas ou ao fecharem - se as cortinas do velho ano, guardarmos a adaga ou o revólver. Pois há atos  ou palavras e omissões que beiram a assassinatos!
     Peneirando o tempo, deixando vazar os bocados de dor, de medo e frustração, sobrará um caldo denso, suculento de amizade e amor que fará bem a muitos.
     Dias finais, recontagem para terminar o ano, hora de agradecer: ao esposo, aos filhos, aos irmãos, aos amigos; agradecer aos vizinhos, aos serviçais e ao Autor da vida.
     Que 2018 nos seja mais leve e eu possa aproveitar melhor meus minutos. E jamais olvidar a missão de amar sem reservas. Se eu conseguir isso, serei abençoada e construirei um oásis de paz!
Então, tenhamos metas reais, possíveis e ao amanhecer do novo ano, começaremos a nova trilha, na peregrinação da vida.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Ponderação

Faltam poucas horas para fecharmos as portas do Ano Velho! Com bons momentos e horas de dúvidas, dores; dias densos, sombrios... O mundo inteiro trazendo más notícias e com muita coragem fomos colocando luzes e caminhando com cautela. Vozes nefastas ecoaram por muitos ângulos. A meta é sempre manter o povo em alerta; no temor. Que os propósitos de 2016, cumpridos ou não fiquem por lá. Que novos sonhos sejam elaborados sem pressa. Também quero que minhas metas não sejam tão grandiosas. Como já refleti, que nossas metas sejam mais imediatas, pequenas, singelas; modestas mesmo. Quero estar viva ainda mais um tempo. Contudo, ninguém sabe o " quando " nem o " como". E não me preocuparei com isso. Se conseguir arrumar minhas gavetas e esta mesa; se conseguir escrever algo, mesmo que quase ninguém leia, ótimo! Se eu terminar a leitura daqueles cinco livros, uns lidos pela metade, outros ainda mal começados. Preciso disciplinar a gula mental e física. " Las Cartas Secretas...", de Gianluigi Nuzzi, está no início. Os dois de Daniel Estulin, " Club Bilderberg" estou a terminar. O de Roberto Pazzi, " Conclave" também no início. " Cartas de Hastings e de Paris, de Teilhard de Chardin, para reler;o mesmo para " Terra dos Homens" de Saint - Exupéry. Isso é urgente e básico. Sei que outros já teriam lido tudo isso e mais o dobro. Não me compararei com os revisores de editora, os profissionais da leitura e releitura. Mas, isso é o mínimo que tenho a fazer, quanto à leitura. Não ponderarei sobre os exercícios físicos e as muitas pausas que me concedo nem sempre voluntárias. O que plantar desde hoje é o que colherei à frente. Quero plantar mais amor, com formato de sorrisos, de abraços, de brincadeiras com netos e debulhar conversas jogando- as pelo chão e pelo ar, sem nenhuma pressa ou preocupação. Com atenção ao momento, sugando o tudo da hora. Embora a frustração sempre aconteça, não me esconderei sob a doença em forma de negação. Quero assumir a tristeza, se aparecer, sem máscara de palhaço que chora pra dentro ou sozinho em seu camarim. Se tiver que chorar, chorarei no palco da vida. Se tiver motivo para rir, quero rir muito, exageradamente. Sem fingimento nem de sofrimento nem de prazer. Pronto. Fim de ano. Sem culpas; com mérito de trabalho feito. Pouco, é verdade. Mas, cá tenho meus motivos. Quero ser digna do Mestre: ponho as mãos no arado e não olho para trás. Se ainda tiver vãos nestas tarefas, pretendo pintar dois quadros e organizar um livro de poesias. Tudo muito devagar. Porque ansiedade é doença séria. O ansioso fica estressado. E a doença deste tempo é o estresse que está sob muitas vestimentas. Nem preciso enumerá-las. Posso até saber de guerras, crises econômicas e governamentais. Passo por elas navegando suavemente. Contudo sei que as ondas bravias podem balançar meu barco. Porém, sou forte na fé: creio que o equilíbrio vem d'Ele. Nada me abalará. Ponderação superficial, mas que me conforta. Que o Ano Novo seja de fato novo para mim e para muitos. Então, feliz Ano Novo!

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Homenagem à ALJA - Academia de Letras José de Alencar

ALJA - Mostarda e Águia Sou a Casa de Letras a crescer eternamente, juntando talentos, qual pedras justapostas harmonicamente, com garra e seriedade. Gerei a menor semente, biblicamente enaltecida. Tornou-se ela, tão somente, ALJA, hoje aqui fortalecida, nesta bela realidade! Meio a muitas Casas de Cultura, neste universo, me encorajei a bater asas; a criar sonhos, em prosa e verso. Levo a muitos o fervor da verdade! Venham todos os amigos. Venham com música e poesia. Venham com vinho, pães e figos. Celebremos nossa Academia, enaltecendo nossa amizade!

terça-feira, 27 de setembro de 2016

De como ocupar corpo e mente

Minha querida amiga, Célia, questionava o porquê de se gastar tempo escrevendo poemas, uma crônica até um conto ou romance. Em geral - continua ela - as pessoas estão sempre correndo, muitas delas viciadas em seus celulares e redes sociais a papear quaisquer piadinhas, figurinhas ilustrativas, tudo de fraco conteúdo só para se sentirem vivas. Argumentei com ela que quando faço meus exercícios físicos, faço-os para manter-me saudável. Não saio a caminhar por uma hora nem pego alguns pesos só para os outros verem. Sei que precisamos praticar tais exercícios e a consequência vem naturalmente. Assim também o exercício mental é importante para que nossas células cerebrais mantenham-se atuantes e realizem as conexões necessárias ao bom juízo e saibam contar uma história ou elaborar um poema. Escrever é como alimentar meu corpo: não escrevo para receber elogios nem espero que muitas pessoas vão ler e gostar ou criticar. Escrevo para mim mesma. Para eu refletir, para lembrar-me de lugares onde estive, de pessoas. Nesta altura da vida, quando a estrada já foi percorrida quase inteiramente, o importante é eu agradar-me a mim mesma; é ter os amigos que escolho e só vou aos lugares que desejo. Nada mais é tão importante quanto nossa satisfação pessoal, nossa alma em paz dentro de nosso corpo. Sou realista, nada pessimista. Por isso, sei que esta vida se esvai a cada segundo e, num piscar de olhos, já não mais existimos. Uso bem pouco as redes sociais. Ali, é uma vitrine para o "ego" que nunca está triste nem aparenta carências. Fotos sempre bonitas, pessoas bem vestidas, sorridentes, em lindos lugares. É uma fantasia meio vazia. Na minha visão. Gosto para matar saudades. Mas não me preenche a alma. O importante é exercitarmos nossas células cinzentas e falarmos de fatos reais ou imaginários. É brincar com o verbo; é pensar como nossa língua é rica e sonora é conferir as figuras de linguagem e tentar plantar ou fazer germinar alguma emoção. Gosto de refletir sobre o mundo, louco como está e maravilhoso na criança de colo e naquela que inventa brincadeiras ricas de imaginação. E sondar a riqueza da natureza e a imensidão do universo em expansão e o planeta Terra a vagar como um ponto de grafite ou um grão de areia! E nós que somos a um tempo insignificantes diante dessa magnitude e grandiosos quando produzimos um mínimo ato de amor ou amizade; quando nos deslumbramos envolvidos nos laranja- roxo- vermelho de um pôr- de- sol... Neste momento, amiga, repasso os e-mails. Falei com minhas filhas pelo Skype - uma em Madri, outra em Paris, de repente, mal corrijo um poema pela segunda vez, já é noite! E conheço gente que me diz lamuriante que não sabe o que fazer nas muitas horas de seu dia. Já lhe aconselhei a curtir jardinagem ou culinária...No nada fazer, há muito o que fazer. É só não ter preguiça e escolher. A decisão de escolher é de cada um: recolher -se encolhida num quarto escuro ou sair para a vida. E não adianta delegar sua vida a outros. Não curto novelas televisivas. Se houver um filme, ao menos razoável, tentarei ver até às vinte e duas horas. Depois, é a reclamação de sempre de que dormi pouco; de que sou ave- noturna. Saio daqui em paz, reconciliada com minha alma. Prometo agradecer ao bom Deus pelos presentes de hoje e por você, querida Célia, ser minha sincera amiga e gastar parte de seu tempo a ler meus parcos escritos. Qualquer dia escreverei um poema em sua homenagem! Só mais uma coisinha: nunca faça nada de que não goste só para impressionar os outros, tentar ser agradável. É muito provável que não gostem e você terá perdido seu tempo e ganhará de lambuja enorme frustração. Se faz só do que ama o primeiro ganho é o alívio do estresse cotidiano.

De como ocupar corpo e mente

Minha querida amiga, Célia, questionava o porquê de se gastar tempo escrevendo poemas, uma crônica até um conto ou romance. Em geral - continua ela - as pessoas estão sempre correndo, muitas delas viciadas em seus celulares e redes sociais a papear quaisquer piadinhas, figurinhas ilustrativas, tudo de fraco conteúdo só para se sentirem vivas. Argumentei com ela que quando faço meus exercícios físicos, faço-os para manter-me saudável. Não saio a caminhar por uma hora nem pego alguns pesos só para os outros verem. Sei que precisamos praticar tais exercícios e a consequência vem naturalmente. Assim também o exercício mental é importante para que nossas células cerebrais mantenham-se atuantes e realizem as conexões necessárias ao bom juízo e saibam contar uma história ou elaborar um poema. Escrever é como alimentar meu corpo: não escrevo para receber elogios nem espero que muitas pessoas vão ler e gostar ou criticar. Escrevo para mim mesma. Para eu refletir, para lembrar-me de lugares onde estive, de pessoas. Nesta altura da vida, quando a estrada já foi percorrida quase inteiramente, o importante é eu agradar-me a mim mesma; é ter os amigos que escolho e só vou aos lugares que desejo. Nada mais é tão importante quanto nossa satisfação pessoal, nossa alma em paz dentro de nosso corpo. Sou realista, nada pessimista. Por isso, sei que esta vida se esvai a cada segundo e, num piscar de olhos, já não mais existimos. Uso bem pouco as redes sociais. Ali, é uma vitrine para o "ego" que nunca está triste nem aparenta carências. Fotos sempre bonitas, pessoas bem vestidas, sorridentes, em lindos lugares. É uma fantasia meio vazia. Na minha visão. Gosto para matar saudades. Mas não me preenche a alma. O importante é exercitarmos nossas células cinzentas e falarmos de fatos reais ou imaginários. É brincar com o verbo; é pensar como nossa língua é rica e sonora é conferir as figuras de linguagem e tentar plantar ou fazer germinar alguma emoção. Gosto de refletir sobre o mundo, louco como está e maravilhoso na criança de colo e naquela que inventa brincadeiras ricas de imaginação. E sondar a riqueza da natureza e a imensidão do universo em expansão e o planeta Terra a vagar como um ponto de grafite ou um grão de areia! E nós que somos a um tempo insignificantes diante dessa magnitude e grandiosos quando produzimos um mínimo ato de amor ou amizade; quando nos deslumbramos envolvidos nos laranja- roxo- vermelho de um pôr- de- sol... Neste momento, amiga, repasso os e-mails. Falei com minhas filhas pelo Skype - uma em Madri, outra em Paris, de repente, mal corrijo um poema pela segunda vez, já é noite! E conheço gente que me diz lamuriante que não sabe o que fazer nas muitas horas de seu dia. Já lhe aconselhei a curtir jardinagem ou culinária...No nada fazer, há muito o que fazer. É só não ter preguiça e escolher. A decisão de escolher é de cada um: recolher -se encolhida num quarto escuro ou sair para a vida. E não adianta delegar sua vida a outros. Não curto novelas televisivas. Se houver um filme, ao menos razoável, tentarei ver até às vinte e duas horas. Depois, é a reclamação de sempre de que dormi pouco; de que sou ave- noturna. Saio daqui em paz, reconciliada com minha alma. Prometo agradecer ao bom Deus pelos presentes de hoje e por você, querida Célia, ser minha sincera amiga e gastar parte de seu tempo a ler meus parcos escritos. Qualquer dia escreverei um poema em sua homenagem! Só mais uma coisinha: nunca faça nada de que não goste só para impressionar os outros, tentar ser agradável. É muito provável que não gostem e você terá perdido seu tempo e ganhará de lambuja enorme frustração. Se faz só do que ama o primeiro ganho é o alívio do estresse cotidiano.

domingo, 21 de agosto de 2016

Matutando

Faz falta o gosto de Minas: fundão de mato, cheiro de bicho... Faz falta montanhas azuladas e casinhas entre galhadas com jardins em volta... Fumaça nas chaminés de chalés quase ocultos por araucárias centenárias! Faz falta um riacho com canoas, pescadores sonolentos, e vaquinhas mochas, pastando em pasto ralo, amarelecido, que a chuva é pouca e mineiro descuidado... Mas o gado, persistente e forte, como o caboclo. Faz falta o silêncio, o passaredo de qualidade e um bom amigo que ficou na saudade! Falta todo o tempo do mundo, pra pensar fundo na vida e esquecer a cidade... Faz falta tudo isso. Muita falta! Falta Minas e falta você!

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Festa Junina

Faz tempo, quando chega junho ponho- me a pensar numa festa junina que aconteceu na minha infância. E questiono se não seria porque eu era muito criança que aquela festa pregou -se em minha memória e se tornaria uma de minhas saudades mais acalentadas. Meu tio Vicente, um belo rapaz que despejava alegria para todos que o rodeavam, apaixonara-se por Ana, vendo-a no meio de uma multidão, quando o azul dos olhos dela se cruzaram com o cerúleo dos olhos dele. E foi uma paixão frondosa, robusta e invejável. Ela, que tinha o apelido carinhoso de Anita, era minha madrinha e eu gostava muito dela. Não sei dizer qual dos dois era mais alegre. A diferença maior era que ele gostava de dançar e ela era mais caseira. Contudo, não o apoquentava quando se fantasiava e saía em bloco de carnaval ou se vestia de caboclo nas festas juninas. Não falarei do amor e do carinho com que minha mãe falava dele, seu irmão caçula: eles se entendiam muito bem. Contudo, aqui só quero-me lembrar daquela noite de encanto. Chegamos à casa de madrinha Anita dois dias antes do sábado festivo. Era muita informação para meu cérebro de sete ou oito anos: havia um entra e sai de criados ou parentes, cada qual sabendo de sua função, orquestrados pela maestrina: uma finalizava o doce- de- casca- de laranja, de abóbora com coco, de mamão e de cidra; outra despejava sobre a pedra mármore o pé- de- moleque, outras pregavam as bandeirolas: muito barbante, cola ( de goma - arábica) eu só observava. Brincávamos num imenso pátio, onde começaram a erguer um altar, uma enorme fogueira e os três mastros com as bandeiras dos santos Antônio, João e Pedro. No sábado, logo ao amanhecer, já havia muita lida na casa. Homens fortes carregavam lenha da carroça para o centro do pátio. A fogueira, rapidamente mostrou- se imponente; aquilo para mim era algo fantástico. E chegavam ainda mais ajudantes dos arredores mesmo lá das alturas da serra. O cenário emoldurado pela Mantiqueira era uma obra de arte. E prepararam pamonhas, canjica, biscoitão, linguiças, pernil e pastéis de farinha de milho; a pipoca deixaram para arrebentar mais à noite. O quentão se apurava em enorme caldeirão. Aqueles homens alegres, colegas de meu tio, que tinham o descanso apenas no domingo - trabalhavam na Usina de São Bernardo, pertencente à Companhia Sul Mineira, geradora de eletricidade para Itajubá e algumas poucas cidades em derredor. Então, meu tio e esses amigos se revessavam nos diversos trabalhos pendurando os muitos metros de bandeirolas... Naquela noite mágica, alguém acendeu a fogueira que imponente dominava a cena; enorme mesa de quitutes, com atoalhado branquíssimo, exibia orgulhosa toda essa gama de cores e sabores que meus olhos não abrangiam. Minha avó iniciou a festa recitando uma parte do Rosário e pedindo proteção a Deus - com os rogos dos três santos homenageados - e me recordo que crianças, jovens e adultos acompanharam com sincera devoção. A partir do final da reza, os sanfoneiros e violeiros entraram a tocar. Meu tio e muitos homens vestidos à moda rural - como se julga até nossos dias - e as jovens ornamentadas com flores nos cabelos e vestidos de babados, com rendas e fitas ou chapéus dançavam animadamente. Lembro-me de que a dança chamada quadrilha era marcada em língua francesa, pois de fato sua origem é europeia, mais precisamente da elite parisiense. Era uma brincadeira muito divertida e alguns solteiros saiam desta festa já com namorada. A madrugada surgia e as pessoas não se animavam a despedirem- se... Ainda ficamos por lá no domingo. Eu fora com minha avó, de charrete e regressaríamos a Itajubá desta mesma forma. Assim, na segunda - feira algum funcionário nos levaria. Dormi de tão exausta pois a excitação era demasiada para a criança que eu era e meus primos ainda mais novos. Hoje, festa junina não tem graça : as pessoas não se animam a se fantasiarem; as comidas são grosseiras, algumas até industrializadas; as músicas numa espécie de show sertanejo que de sertão nada tem. Não vejo a quadrilha marcada nem em português quanto mais em francês... Pode ser que lá pelo Sul de Minas ainda mantenham esta festa folclórica que lembra a abundância das fazendas até os anos sessenta. Agora, vou pôr a dormir minha saudade que um pouco deste sonho distante já revivi enquanto escrevi.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Dia de Natal

O loiro  de certos cabelos ficou  mais brilhante, o caminhar queimado e cadenciado da morena seduziu a muitos e o grisalho de uns poucos impôs o respeito à mesa. Proibidos os eletrônicos - nada de redes sociais nem mensagens de grupos, a conversa fluiu alegre, descontraída,  com olhos -nos- olhos, e direito a sorrisos...
Isso tudo porque é Natal.

Ficamos, eu e meu marido, cada qual em uma cabeceira da mesa. Os outros se acomodaram como quiseram: nada de lugares marcados. Fiquei feliz que meu marido conduziu uma singela oração de gratidão e respeito a Deus, pelo amor que nos tem demonstrado na pessoa de Jesus Cristo. Depois do jantar, as crianças queriam se lambuzar no marrom do bolo de chocolate. Cantamos o " Parabéns " para o Menino Jesus e todos os quatro netos fizeram questão de soprar a velinha: portanto cantamos quatro vezes a mesma canção congratulatória. Depois, vieram as outras sobremesas. Tudo muito tranquilo, com alegria sem estardalhaço: a um canto, um pequeno Presépio - a Lapinha apenas. No próximo  ano quero fazer um maior e mais bonito. A neta caçula ainda tem um bom tempo para entender como os meninos já entendem - a festa é do aniversário de Jesus. E o Menino Jesus tem um entregador dos presentes que ele mesmo nos dá: o figurante é o Papai Noel. Se não educarmos nossas crianças, este velhinho nem sempre justo em seu presentar, leva toda atenção e recebe todos os créditos, numa sociedade cada vez mais materialista, consumista e egoísta.
 Para que uma parte da justiça seja feita é bom que as crianças saibam que seus papais, mamães e outros muitos, são os que compram seus desejados brinquedos. Pois que nem perguntam por que o bom velhinho não oferece brinquedos lindos e caros aos pobrezinhos? E, antes da tão esperada noite, meus netos encheram duas sacolas com ótimos presentes para doação e abriram espaço para os novos que nesta noite natalina receberam.

O bom de tudo isso é que, sendo Natal, muitos se perdoaram e deixaram no esquecimento poucas ou muitas ofensas; porque é Natal deram de si mesmos visitando doentes, partilhando vida, roupas, alimentos e brinquedos, em creches, orfanatos, asilos e hospitais. Que possamos seguir neste ritmo durante todo o Ano Novo, fazendo de cada dia comum, um dia especial. Este seria o milagre do Natal. Porque o sentimento de amor e amizade; de colaboração e de paz não deve acontecer apenas uma vez por ano, no dia do Natal.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Ópera de Copa e Cozinha

      Ia falar de outra coisa. Mas, lembrando a alegria contagiante de minha mãe - ela se chamava Maria Conceição - certamente homenagem a Maria, mãe de Jesus. Mamãe cantava enquanto fazia suas tarefas domésticas; às vezes chorava, como quase todo mundo chora, quando não esconde a dor. Mas sua característica marcante era o canto e o riso, largo, generoso de orelha a orelha. Na verdade, todo mundo alegre lembra-me de mamãe. Assim, também foi com Tereza.

Tereza seduziu - me com sua garganta de cristal ou seriam cordas vocais de ouro? Esta amiga especial tem seu registro vocal como soprano - creio eu em minha total ignorância musical. Já cantou em coros de óperas e corais, em teatros de Vitória, no Espírito Santo. A moça é de palco! Fazia muitos anos em que não nos víamos, apenas trocando frases no correio eletrônico. Tivemos uns dias de trocas emocionais, valiosos. A Internet é seca, fria. Não nos beija nem nos abraça; não nos olha nos olhos.
Depois dos efusivos beijinhos e abraços, olhares e exclamações; depois de ela dourar a cebola e murchar os tomatinhos, depois de almoçarmos o rosado bobó - de- camarão, tomarmos um reserva cabernet sauvignon e apurarmos o paladar com o alaranjado da sobremesa de mamão maduro, mesmo ao cafezinho Tereza ainda não tinha exibido sequer uma nota musical. Depois, uns foram cochilar, outros conferir seus e-mails até varrer a sala vi que fizeram...Havia sempre tarefa para quem se oferecesse.
Fomos eu e ela para a pia, apesar de seus protestos para que fosse usada a lava - louças. De repente, estava ali a soprano a solfejar um trecho de Carmen - Ópera de Bizet - com todas suas nuances e meandros, como um rio que sobe e desce ou despenca em cascata :
"...L'amour, l'amour, l'amour, l'amour...
L'amour est enfant de bohème. Il n'a jamais, jamais connu de lois.
Si tu ne m'aime pas, je t'aime. Si je t'aime prend garde toi...mais  si je t'aime..."

E eu que não pio nem como pardal, estava a fazer coro com ela como se de música entendesse. Mesmo porque amo a língua francesa e esta ópera é das mais populares!? Continuamos em nosso ensaio nos outros dias: enquanto eu descascava batatas e as amassava, minha amiga artista - seduzida por Bizet - preparava uma torta. Cantávamos  culminando naquela apoteose! A louça foi lavada, enxuta, lustrada e guardada em seus devidos lugares. A torta ficara pronta. Tereza estava iluminada! Sua alma vazava alegria por todos os poros; faíscas divinas nos envolviam! E, ao " grand final", caímos na gargalhada como crianças travessas: éramos Pavarotti, Carreras, Domingo, quiçá a grande Callas!...Cheguei a ouvir aplausos, podem crer!
Isso é o que passo a chamar de " Ópera de Copa e Cozinha".

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Chorar pra Dentro

Ele chegou meio constrangido e confessou-me como um pecado se confessa, como se fora enorme fraqueza:" Estou muito angustiado. Meu peito aperta, o ar se nega e sei que, se eu chorasse, ia sentir-me muito melhor". Olhei-o  nos olhos e amei-o profundamente. Aqueles olhos deveriam estar ardentes pois vermelhos estavam. Abracei-o fortemente e sussurrei-lhe aos ouvidos que de fato, os olhos são as portas por onde deixamos ir embora com as lágrimas, toda mágoa, toda frustração, todo desencanto. Até brinquei cantarolando a tão popular: " Quero chorar não tenho lágrimas, que me rolem nas faces pra me socorrer. Se eu chorasse, talvez desabafasse o que sinto no peito e não posso dizer. Só porque não sei chorar eu vivo triste a sofrer..." Ele sorriu-me um risinho amarelo e me apertou mais forte junto a si. Senti certo tremor por todo seu corpo. Certamente, emoção e lágrimas retidas. Continuou a dizer-me que desde muito menino acostumara-se a reter as lágrimas, lá num canto escuro do coração, porque a regra paterna era a de que aquele que chorasse apanharia mais ainda! Então, ele esperava passar o mau momento e seguia em frente sem alarde.

Expliquei a ele que isso não era deixar de chorar. Isso era o que chamo de chorar pra dentro. Quando a dor é muita, as lágrimas enchem o vaso interior e sobra um pouco que sai muito timidamente, à noite sob as cobertas ou durante um banho, para escorrerem disfarçadas, diluídas n'água que cai do chuveiro. Mas a dor permanece no peito, ela fica agarrada ao coração e sufoca mesmo! Há quem passe muitos anos chorando pra dentro - seja pelo tombo moral de um colega de trabalho, por uma traição amorosa, algum abuso sexual, a morte de um ente querido , humilhações de todo tipo. A pessoa não tem lágrimas a lhe socorrer - somatiza um câncer, uma depressão, no mínimo um silêncio mortal.

A dor corre ao lado da alegria Da mesma forma como se esconde a dor e não se soltam as lágrimas, também o riso e alegria podem ser falsos. A pessoa passa a cantar "só porque não sei chorar eu vivo alegre a sorrir." Finge felicidade.. Não é clássico ser o palhaço a pessoa mais triste do circo?

Repeti muitas vezes  a meu filho, desde menino e vida afora:" homem chora, sim, viu?" Quem diz que homem não chora nada entende da vida. Homem e mulher deveriam aprender o valor e a medida certa das lágrimas. Elas são preciosas; são como diamantes. Lágrimas verdadeiras lavam nossa alma, limpam o espírito e renovam nossas energias.

Eu mesma já chorei muito pra dentro. A garganta e os olhos ardem e nenhum alívio acontece. Repito, nada de reprimir o pranto;  choro é resposta de tristeza, assim como o sorriso é a resposta da alegria . Vamos praticar as emoções e deixar que as manifestações delas surjam naturalmente.

Combinei com ele de partilharmos nossas tristezas  assim como dividimos as alegrias. E, se rimos na leveza dos encontros também podemos somar nossas lágrimas, ainda que reduzidas cá fora, pois somos iniciantes na arte de vazar  sentimentos molhados. E você, por favor, não engula os sofrimentos porque lágrimas retidas formam um lago que se torna em doença. Sorrir é bom e lindo. Chorar é nobre e saudável.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Surpresas

Nestes dias passados, ainda em agosto, ganhei uma fantástica surpresa! Algo nunca experimentado nem imaginado. E não consigo exprimir com exatidão os sentimentos que despertaram em minh'alma, as emoções que me invadiram sem me avisar.

         Já vi a morte muito de perto, também em surpresa, quando eu - nos mal- completos dezoito anos, fui designada pela minha mãe a conferir o que havia acontecido, em casa de minha avó, pois de lá - casa próxima à nossa - meu tio gritava assustado. Minha avó tinha uns oitenta anos e sofrera um tipo leve de AVC, que a limitava em seu caminhar; não, porém, no entendimento e na fala.
Foi automático meu proceder, impensado mesmo; ela estava voltada para a parede e eu a revirei para meu lado. O lado de fora da cama. Ela estava morta! Talvez tivesse falecido logo de madrugada. Eu estava vestida para ir ao colégio. Minha mãe ainda estava deitada; quem se levantava primeiro e preparava o café era meu pai. Então, busquei uma bacia com água morna, sabonete e uma toalha pequena. Um absurdo o que fiz! Dei-lhe um banho ali na cama, como fazem com doentes; vesti-lhe meias longas e finas, as roupas íntimas e um belo vestido preto de boa seda. Penteei seus cabelos e espalhei abundantes gotas de perfume.
Mas, esta é outra história, que me rendeu meses de pesadelos chocantes. Contudo, cito este fato, como outros semelhantes, quando digo que visto minha armadura de Joana D'Arc e enfrento a turba, nos caminhos tortuosos de alguma grande ou pequena dificuldade. Pareço de pedra para amparar as dores alheias. Poderia não ser assim, mas não quero desmoronar junto ao outro que está despencando. Preciso ser forte e amparar o sonho desfeito ou a dor que esmaga o coração.

          Tive muitas boas surpresas; mas envoltas em expectativas. Surpresa como me deram, porém, é difícil de explicar. Fui levada num envolvimento sutil, de meias palavras, de argumentos  vagos e de repente uma porta se abre e vejo-me num torvelinho de emoções boas e ricas; risos e rostos os mais inesperados, os jamais imaginados ali, naquela noite! Pessoas de muito longe, outras de perto; umas raras em meus dias outras mais presentes: todas brilhando em carinho, amor, luz. Naquela sala havia afeto de avó, de mãe, de filhos e de netos. Nos meandros da amizade e da ternura, senti o ruflar de asas angelicais de nora e esposo; sobrinhos e irmãos. Eu era Alice e tinha entrado no buraco da árvore; fiquei sem chão, sem a minha armadura; estava totalmente vulnerável. Então, as lágrimas desceram sem constrangimento. Aos poucos, muito lentamente, voltei à realidade e pude olhar os mínimos detalhes que a "grande equipe" me tinha proporcionado: vasos de pimenta, envoltos em tecido, pequenas jarras com florinhas minúsculas, vidros de pimenta etiquetados " Boteco da  Regina"; toalhas floridas e todos os doces que mais aprecio: quindins, olhos - de- sogra, bolo de coco e docinhos de nozes. Ainda me arrumaram um vídeo, com parte de minha história! E contrataram um músico e seus pares, para executarem músicas adequadas ao boteco e aos presentes. Sou grata ao bom Deus que me proporcionou este presente e a todos que o tornaram possível.
Agora, sei o que é uma surpresa sem a menor expectativa! Uma surpresa ótima, mas é preciso ter um coração muito forte, porque faz balançar todo nosso ser!